Digital Literature Web

«DigLitWeb é um hipertexto em curso. Pretende investigar a digitalização da literatura, com especial incidência no campo dos Estudos Ingleses e Americanos. Constitui-se como ambiente colectivo de aprendizagem crítica e como guia selectivo de obras e arquivos electrónicos em acesso remoto. São consideradas quer edições electrónicas do património literário, quer os novos géneDigital Literature Webros e formas digitais.» Um site a descobrir.

Ahab edições

Os primeiros livros da Ahab, uma nova editora com sede no Porto, já chegaram às livrarias. O conjunto inicial - Pergunta ao pó, do norte-americano John Fante; A ilha, do italiano Giani Stuparich, e Pudor e Dignidade, do norueguês Dag Solstad - mostra bem a filosofia que norteia o projecto de Joana Pinto Coelho e Tiago Szabo. Um design gráfico muito cuidado para traduções de línguas e de autores pouco comuns no panorama editorial português, na linha da Cavalo de Ferro. No contexto actual, entre crises e concentrações, é obra!

António Lobo Antunes: A vida toda


Um novo romance,
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, um retrato falado, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, de João Céu e Silva, e um documentário inédito, Escrever, Escrever, Viver, de Solveig Nordlund, que passou no DocLisboa Como em anos anteriores, António Lobo Antunes, 67 anos, é um dos escritores em destaque nesta rentrée. Estatuto ainda mais reforçado quando passam precisamente três décadas sobre a sua estreia literária, com Memória de Elefante. Pretextossuficientes para uma conversa sobre livros e literatura, buscas e conquistas. Sobre uma vida inteira dedicada à escrita.

Abre-se a porta e ali está ele. O homem por detrás do mito. O escritor de livros difíceis. O autor de temperamento imprevisível. A pessoa que, como Oscar Wilde, pouco tem a declarar além do seu génio. Inesperadamente, o sorriso é rasgado. Tem estado a escrever desde as sete horas da manhã, como faz todos os dias, excepto ao domingo. Só agora, perto das 11, abandona o seu paraíso terrestre. Porque é na escrita que António Lobo Antunes se realiza, como dirá nesta entrevista, combinada há meses por telefone. «Falamos em Outubro», garantiu-me.
Ao fechar a porta, revela-se a enorme sala da sua casa. Primeiro as estantes, de ponta a ponta, de alto a baixo, cobrindo as paredes. A seguir, a arrumação metódica e impecável. Os gregos e latinos de um lado, os russos noutro, os catálogos de pintura ao meio, livros em português, em inglês, em francês e em espanhol. Uma biblioteca infindável e de respeito, que denuncia o leitor que divide o tempo com o escritor.
A um canto, uma pequena mesa, afastada da janela, ainda na sala, mas já perto das outras divisões - um quarto e um escritório. O candeeiro está aceso e ilumina o tampo. Em cima, as folhas de hospital em que Lobo Antunes tem vindo a escrever a sua obra, já constituída por 21 romances, sem contar com os três volumes de crónicas. Num rápido olhar, antevemos a famosa letra azul, miudinha, redonda, apertada, que apenas ele percebe. E é nesse universo literário, íntimo e pessoal, em que mergulhamos. Gravador na mão, várias perguntas sobre o novo romance Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, uma edição da Dom Quixote. E perguntas também sobre os 30 anos de vida literária que assinala este ano. Em 1979, protagonizou uma das estreias mais fulgurantes da literatura portuguesa com a dupla publicação de Memória de Elefante e Os Cus de Judas. E desde então nunca mais abandonou a ribalta.
Mas o motivo que nos junta aqui é também outro, um amigo comum: o José Manuel Rodrigues da Silva, jornalista e editor do JL, falecido em Janeiro deste ano. É que foi ele o primeiro a entrevistar Lobo Antunes. Não se conheciam, nem frequentavam os mesmos círculos. Mas o romance de um e o faro jornalístico de outro proporcionaram esse encontro. A conversa ocuparia as páginas de Cultura do Diário Popular em dois números seguidos, feito inédito (e provavelmente irrepetível) para um estreante. Foi um tiro no escuro, mas certeiro. E o início de uma bela amizade.
«O Zé Manel era um homem de qualidades muito raras. E também um jornalista único, com todos os seus defeitos e qualidades. Uma pessoa de paixões, excessivo, parcial, mas estruturalmente bom, de uma grande bondade e disponibilidade para com os outros. Tinha por ele uma enorme amizade, admiração, respeito e amor», confessa-me Lobo Antunes. E acrescenta: «Vamos fazer isto em homenagem ao Zé Manel». Vamos.

Jornal de Letras: Este parece ser um livro de imagens, repetidas muitas vezes. A do título, claro, mas também esta, em que a morte de um touro que vive à margem do romance convive com o drama psicológico das personagens: «Os joelhos dobram-se, o corpo dobra-se sobre os joelhos, a cabeça dobra-se sobre o corpo, tomba de banda sem acreditar que tombou e no momento em que não acredita esquece-se». Por que razão escolheu o universo da tourada como pano de fundo de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?
António Lobo Antunes: Há muito tempo que me apetecia dividir um livro nas várias partes de uma corrida de touros. Tentei com anteriores, mas não deu. Neste encaixou na perfeição, o que foi um dos milagres do livro. Há uma voz que fala no início e no fim, antes e depois da corrida. Depois há outras vozes, ou a mesma, não sei dizer.

O que encontrou de tão apelativo no universo das touradas para querer associá-lo num romance?
A tourada enquanto paralelo da vida, nas suas várias dimensões. É muito difícil falar de um livro. Talvez a única maneira seja escrever outro.

Mas é uma espécie de arena de emoções? De espectáculo da vida e da morte?
Não estava especialmente interessado na morte. Queria pôr tudo lá dentro. Nunca achei este livro, ou qualquer outro, triste. Um grande amigo, o José Cardoso Pires, dizia-me: «Divirto-me muito a ler os teus livros». Ficava contente com isso, porque também eu me divirto (pelo menos na primeira versão). Da mesma forma, nunca percebi por que razão as pessoas dizem: o livro é difícil. Para mim é tudo muito claro e evidente. Se uma pessoa ler estes livros segundo as suas leis, não terá dificuldade nenhuma em entrar naquele universo. Aquilo somos nós.

«Aquilo somos nós», diz-me, como quem pede uma opinião. O olhar demorado confirma a intuição. Aceito o repto, inicio uma interpretação pessoal sobre as regras dos seus romances. Quando me perguntam a opinião sobre os seus livros associo-os sempre à música clássica, a uma sinfonia ou a uma melodia que se repete. Penso na Sonata a Kreutzer, de Beethoven, que nos faz desejar o regresso dos mesmos acordes e em que a memória de alguns compassos ecoa durante toda a sua audição.

Leio os seus livros com essa vontade de repetição, sem medo de só perceber algumas passagens mais tarde.
É curioso que tenha dito isso, porque fiz três livros – Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisa e A Morte de Carlos Gardel – que tinham esquemas sinfónicos. Até certo ponto, julgo que isso continua a acontecer: pode-se ver nas diferentes vozes diferentes instrumentos, como o oboé ou o fagote. As pessoas têm de abordar aqueles livros como se fossem uma sinfonia, uma missa ou um requiem. Não há uma história, nem uma intriga. O livro não tende para um fim concreto. Além disso, muitas vezes o significado não está no interior do livro, mas à roda dele. Esse é o único caminho. Por exemplo, há livros que gosto de ler mas que não gostaria de escrever. O Steiner tem razão quando diz que o melhor contador de histórias é o Simenon. E eu gosto das suas histórias. Porém, não é isso que me interessa. Quero fazer outra coisa.

O quê?
Há anos, li uma crítica sobre o tenista Bjorn Borg, em que o jornalista dizia que os outros jogavam ténis, mas ele jogava outra coisa. É essa outra coisa que me interessa. Quando estou a ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, não é a história que me interessa, mas o que está além disso. O que é inapreensível. É difícil de explicar, porque o que está além disso sou eu. Nós todos. Tenho a sensação que aquilo foi escrito para mim, que há um diálogo entre nós, que ele me compreendia totalmente. Claro que é sempre preciso uma estrutura, cuja explicação tem pouca importância e só maça os leitores. O importante é que a mesa esteja feita, não como o marceneiro a fez.

Antigamente costumava planear os seus livros. Já não o faz?
Não trabalho com plano há muito tempo. Cada vez sei menos de onde vêm os livros. Quando começo normalmente não tenho nada. Neste, tinha aquelas duas frases. O livro foi quase todo ditado. Ao escrevê-lo estive sempre a obedecer a uma espécie de voz. E só na fase de correcção é que me surpreendi: eu não escrevo assim tão bem. De onde veio tudo isto?

Esta perplexidade também tem expressão no romance. São várias as interpelações que as personagens fazem ao autor, e vice-versa. Alguns exemplos: «Eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me» (pp. 22). Ou: «Este livro é o teu testamento António Lobo Antunes» (pp. 123). Ou ainda: «Há por aí alguém com um resto de compaixão que acabe o meu discurso por mim eu que mal existo no livro, uma dúzia de frases que o António Lobo Antunes aprove e de que não sou capaz» (pp. 231). Ou também: «Quem escreve o livro não tem direito de decidir por mim» (pp. 355).

No entanto, o seu papel como maestro é particularmente visível neste livro.
Já acontecia em livros anteriores e acaba por ser inevitável. É um problema que se me põe cada vez mais: Quem é que escreve o livro? Sou eu? Tenho dúvidas. O Eduardo Lourenço aflorou isso num artigo. Apresentava-me como um transmissor entre duas instâncias. Mas questiono-me: até que ponto temos o direito de nos intitularmos autores de um livro, sobretudo um como Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? Porque numa história normal é evidente quem é o autor. Aquilo passa-se na espuma das coisas. Os grandes livros, pelo contrário, são anónimos, são escritos por todos nós.

A certa altura, uma personagem pergunta: «Quando fala por mim detesta o que escreve?» Há vozes com as quais é mais difícil lidar?
Escrever é um trabalho. E ao princípio raramente o associava ao prazer. Mas, por exemplo, a voz de um pedófilo. Foi um milagre. Porque não sei o que é um pedófilo, o que pensa ou o que quer. O mesmo dilema já se tinha colocado com os universos dos travestis e dos homossexuais em O Que Farei Quando Tudo Arde?. E também em relação às mulheres, em Exortação aos Crocodilos. O que sabemos nós, homens, sobre as mulheres? Muito pouco. Nessa altura, tinha a impressão de estar a aprender coisas à medida que ia escrevendo. Porque eu não faço pesquisa, nem tiro notas.

Joga tudo no instinto?
Se estou realmente a escrever um livro, ele sabe como se organizar. Aos poucos, começa a ficar autónomo, com a sua fisionomia e estrutura. E tenho de ir atrás dele. A cabeça tem de estar vigilante, sobretudo para as correcções. Num primeiro momento, há muitas parvoíces, redundâncias, toda a espécie de erros. Mas o livro já lá está, debaixo daquele amontoado de palavras. Enterrado ali em baixo. Só é preciso limpar.

O seu papel é evitar becos sem saída?
Eles aparecem a cada passo. Mas até que ponto um livro não é sempre um beco sem saída? Até que ponto não começamos a libertarmo-nos do livro só depois de o entregar à editora? Eu nunca leio os meus livros, como não leio as traduções – a maior parte das línguas não conheço, são tantas. Por isso, para me esquecer dele, começo outro, sem saber se dará um livro. Essa é a angústia permanente. Será que vou fazer outro livro?

A experiência não lhe permite perceber isso?
Os livros só me ensinaram a ser humilde em relação ao nosso trabalho. Porque pensamos que mudamos a literatura. Mas cada grande escritor muda a literatura, pois há mil e uma maneiras de o fazer. Quase todos os que aqui estão [António Lobo Antunes levanta o olhar para a estante, como se se confrontasse com a História. Ergue o braço para abarcar todos os livros que tem pela frente] estão mudaram a literatura. Mas, depois, comigo, é sempre o mesmo sentimento: ainda não é isso, ainda não é isto, tenho de ir mais fundo, tenho de ir mais fundo. Por vezes tenho a sensação de estar a começar. Que não sei nada.

Nada?
É evidente que sei do ofício, como os marceneiros, os carpinteiros e os cirurgiões percebem do seu. Mas na literatura as coisas vêm de zonas nossas que não entendemos. O material vem em bruto. E ao lidar com emoções, o escritor trabalha com algo que antecede as palavras. A força com que sentimos as coisas é por definição inexprimível. O desafio é tentar colocar essas sensações em palavras, embora a distância entre a intensidade da emoção e o que fica no papel seja enorme. Todo o meu trabalho é no sentido de aproximar esses dois pólos.

Este ano assinala três décadas de vida literária...
… Eu comecei a fazer isto com cinco ou seis anos. Escrevia e destruía tudo. Não me interessa publicar. Só escrever. A Memória de Elefante foi publicada por acaso.

A história é conhecida. Em pequeno, António Lobo Antunes compunha sonetos a Cristo que depois vendia à avó. Também o pai lhe receitava poesia em vez de aspirinas. E, aos poucos, descobriu o caminho para a escrita. Muitos anos mais tarde, Daniel Sampaio foi a sua casa e encontrou o manuscrito de
Memória de Elefante. Perguntou-lhe o que era. «Um romance», respondeu desinteressadamente. «E não queres publicar?», acrescentou o conhecido psiquiatra. Perante a indiferença do amigo, Daniel Sampaio assumiu a tarefa de apresentar o livro a várias editoras. Depois de algumas recusas, foi aceite pela Vega. Lançado em Julho, depois do Verão já era um dos livros do ano. Portugal descobria uma nova voz, confirmada pela publicação, ainda em 1979, de Os Cus de Judas. Para trás ficava uma dura experiência de guerra em Angola, como médico e sob o comando de Melo Antunes, que alimentou a sua prosa durante muitos anos. Gradualmente, também a psiquiatria, área em que se especializou depois de regressar a Portugal, foi perdendo lugar em relação à Literatura, à medida que ia concluindo o acompanhamento dos seus pacientes. Há muitos anos que vive só da escrita.

O que mudou na sua vida?
De repente, vi-me apanhado numa rede enorme. Eu não sabia nada acerca do meio literário. Surgiram editores, agentes, convites. Foi tudo muito súbito. Hoje em dia, espanta-me que esses
livros continuem a vender tanto. Ao mesmo tempo, foi bom porque abriu portas a outros escritores. Ficou-se à espera de um novo António Lobo Antunes. Tornou-se mais fácil para quem começava a escrever. Porque, embora as editoras andem sempre à procura de um bom autor em língua portuguesa, começar não é fácil. Além disso, estamos muito longe de uma Idade de Ouro, como a que se viveu no século XIX, quando havia 30 génios ao mesmo tempo. Agora, encontrar cinco bons escritores em todo o mundo já não é mau.

A publicação regular é um dos traços do seu percurso.
Pois. Mas também não tenho desculpa, não faço mais nada. Além disso, acabo sempre os livros com a sensação de que não é isto que eu quero, que estou a seguir caminhos que outros já seguiram. Quero fazer o que mais ninguém fez. Às vezes penso que se voltasse atrás apagava todos os livros até O Esplendor de Portugal [o seu 12.º romance, de 1997]. Mas é um pensamento completamente idiota, porque se não fossem os primeiros livros eu não existia. Agora que tenho autorizado a tradução dos meus primeiros livros, dizem-me que já lá estava tudo. É possível, não sei. Talvez em bruto. Mas o facto é que mudou muito. E espero que continue a mudar de livro para livro. Que me aproxime cada vez mais do que desejo e nunca chegarei a fazer.

É difícil não o admitir: António Lobo Antunes tem sido coerente com essa vontade. Entrega-se à luta, reinventa-se a cada livro, mesmo se às vezes parece que está sempre a escrever o mesmo romance. Por vezes, atravessa a fronteira. Lemo-lo mas não temos referências. A paisagem não se deixa descobrir. Porém, o escritor continua. Prossegue o combate. Tenta concretizar a sua ambição.

Essa busca não tem fim?
O meu problema é simples: «Você não vai ser capaz de escrever um livro melhor que este», disse agora a minha editora [Maria da Piedade Ferreira]. Não sei, vamos ver. Se não for para ser melhor, para quê escrevê-lo? Neste momento, ainda estou às voltas com uma primeira versão. Talvez venha a ser do tamanho de O Arquipélago da Insónia.

Tem algum ponto de partida concreto?
Um homem que vai ser operado a um cancro do qual pode vir a morrer. Mas quero fazer isto de uma forma completamente diferente. Não está divido em partes e, ao contrário dos últimos, é escrito na terceira pessoa. Ou seja, há um ele que tem dentro de si o eu, o tu, o nós.

Terá, na mesma, muitas vozes?
De momento sei que há um homem internado no hospital e que está ao mesmo tempo na sua vila. O Arquipélago da Insónia passa-se no Alentejo, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? no Ribatejo, este que estou a escrever no Norte, que eu conheço melhor. Por isso, no hospital, no quarto, entram carroças, há pinheiros, a Serra da Estrela. É um livro muito ambicioso.

O cancro parece ser um tema cada vez mais presente na prosa de António Lobo Antunes. Em Março de 2007, o escritor surpreendeu toda a gente ao revelar, numa crónica na revista VISÃO, que tinha um cancro no intestino e que tinha sido operado de urgência. «Não acreditava que um dia destes chegasse», desabafou. «E agora veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé». E sobre a doença, acrescentou: «Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não — sim.» Se o cancro é tema do manuscrito que está a escrever, com o título provisório Babel e Sião, está também presente em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?

Este é o primeiro livro que escreve depois de ter sido operado. O Arquipélago da Insónia estava a meio quando foi internado. Sente-se a revisitar a sua história recente?
Nunca tinha pensado nisso… Porque a doença é usada como metáfora. A fortuna que o filho mais velho procura não tem a ver com dinheiro, nem com poder, mas com amor. É uma procura de amor e afecto. No fundo, é a nossa inextinguível necessidade de ternura e amor.

Mas a experiência do cancro está presente na sua escrita?
Foi uma experiência muito radical. Um espanto. Uma surpresa. E uma conquista lenta. Fala-se muito em vencer a doença, mas ninguém vence uma doença. Todos temos medo de morrer… A única coisa que me preocupava era, porém, o trabalho incompleto. Não sei se é compreensível, mas era como uma missão, algo que me foi dado e que eu tinha de fazer. Muitas vezes dizem que eu reclamo que os livros que se escrevem em Portugal são maus.

De facto, reclama algumas vezes...
Mas não é isso que está na minha cabeça. Eu gosto muito de ler. É um prazer, sempre foi. Mas é terrível para mim ler um livro, sobretudo aquilo a que se chama ficção. A minha vontade é começar logo a corrigir. Não é assim que se escreve isto. Tem de se ir mais fundo.

Ir mais fundo, até onde?
Não sei. Eu gostava que fosse uma explicação do mundo. A vida toda.

A vida na sua vivência quotidiana?
Nas perguntas que nos pomos constantemente acerca do sentido da vida, do tempo. A angústia do Homem. Queria atingir aquele núcleo que todos temos dentro de nós, aquele negro impartilhável que julgamos inacessível aos outros.

Recusa a ideia de grandes feitos, de uma visão épica da vida? A própria Ilíada é desencadeada por interesses pessoais.
E a vida é feita de pequenas coisas. Também a Odisseia se podia chamar Tenho a Minha Mulher à Espera. Mas ao mesmo tempo é curioso, porque os clássicos são westerns, são epopeias, histórias aos quadradinhos. Está lá tudo. É aí que temos de chegar. Não podemos ser complacentes connosco enquanto fazedores de livros. Se não for para ser o melhor, não vale a pena escrever. Se não for para dizer coisas que nunca foram ditas, não vale a pena escrever. Lembrei-me agora do que diz o profeta Isaías: «Eu anuncio coisas novas, ilhas cantai um canto novo». Se alguém quer mesmo ser escritor, é isto que tem de fazer: trazer um canto novo, falar do que existe dentro de nós e nunca foi falado.

Consegue perceber o que trouxe de novo?
Não sei, parece-me que ainda é muito cedo para perceber. Qual é a sua opinião?

A minha opinião? Não é fácil de explicar. Diria talvez que trouxe a exacta reprodução do pensamento humano, das suas pulsões, das suas hesitações, da sua falta de linearidade. Como diz, a certa altura, uma das vozes de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?: «Não consigo contar as coisas por ordem dado que as misturo em mim, ao atravessarem certas zonas da minha cabeça perco-as e ao recuperá-las alteram-se». É o que nos acontece todos os dias.

Contudo, a sua resposta será sem dúvida mais interessante.
Quando se está a viver, dentro da nossa cabeça há muitas contradições. Por que razão quando contamos uma história não tentamos isso também? A nossa vida não é uma história que possa ser contada, porque está cheia de afluentes e subafluentes. Mas essa opção não foi voluntária, antes progressiva, lenta e penosa. Escrever é muito difícil. E custa muito. Põe-se tempo e saúde, mas ao cabo e ao resto são os livros que são importantes.

Reconhece esse cunho pessoal?
Não sei dizer. Porque agora uma coisa é aquilo que eu faço, outra é a avalanche que se tem passado à minha volta, com prémios e mais prémios, traduções e mais traduções, livros e mais livros. Nem me estou a referir a Portugal. No mundo inteiro.

Na Feira do Livro de Guadalajara, como se vê no documentário de Solveig Nordlund, chega a falar de uma «marca registada».
Isso era uma boutade sobre o barulho à minha volta, que é sempre a melhor forma de anular um escritor. Até há alguns anos ninguém falava de mim, porque eu não apareço. Não vou a lançamentos. A minha vida social é restringida. Tenho quatro ou cinco amigos. As pessoas não sabem onde moro, nem o meu número de telefone. Ultimamente têm-me feito coisas incríveis nos jornais, de mentira e de baixeza.

Sem querer falar do assunto, refere-se a manchetes e notícias que recentemente foram publicadas na imprensa. A sua relação com uma jornalista brasileira, as revelações intimas que voluntariamente fez a João Céu e Silva, no livro Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes (uma edição da Porto Editora), com referências a tendências suicidas, à vida amorosa, à experiência da guerra e à literatura portuguesa, entre muitos outros assuntos.

Sente que agora há uma curiosidade crescente?
Não dou por isso. Claro que as pessoas do bairro me conhecem. Mas muitas nem sabem o que faço. Tratam-me por senhor António, que no fundo é o que sou. Tirando os livros, se calhar não existo. E o sucesso é cada vez menos importante. No princípio somos sequiosos de reconhecimento, porque somos inseguros. Falo por mim. Claro que eu queria, com os primeiros livros, trazer coisas novas, dar entrevistas provocadoras. Tudo tinha de ser feito de maneira diferente. Mas não serve de nada pôr-me em bicos de pés e gritar. As pessoas não entendem e continuam a fazer da mesma maneira. Dá a ideia que se trazemos livros importantes temos de ensinar os leitores a lerem-nos. Portanto, esta unanimidade que agora se gerou à minha volta, com o Steiner conciliado com o Bloom, foi um processo lento e cheio de equívocos. Depois há sempre um crítico que está a começar e que normalmente me dá porrada, o que também faz parte. Para se afirmar tem de estar contra. Eu também funcionava assim.

Ao longo dos anos foi sempre uma figura polémica.
Nunca me viu discutir com ninguém.

Mas as suas declarações sempre foram fortes e provocatórias. Basta passar os olhos pelas manchetes do JL dedicadas a Lobo Antunes, a título de exemplo, para encontrarmos frases como: «Muitos escritores têm-me um pó desgraçado» (n.º 23), «Estou farto de ser bem comportado» (n.º 72), «Isto é um ofício das trevas» (n.º 176), «Se não ganhasse [o Prémio APE] ficava chateado» (n.º 197), «A pensar no Nobel» (n.º 538) ou «Emissário de um rei desconhecido» (n.º 941).

Aliás, logo na primeira entrevista ao JL, em 1982, dizia que se sentia uma criança que desejava chatear os adultos.
Disse isso?

Está escrito.
Pois. De facto, quando comecei sentia-me quase um menino entre os doutores. E para ser totalmente sincero, tirando dois ou três nomes, não tinha respeito pelo que se escrevia no nosso país. Continuo a não ter. O que não exclui que haja escritores sérios, honestos e com talento.

Em entrevistas recentes, fala na hipótese de deixar de publicar livros.
Sim. Não tenho problemas em relação a isso. Foi o que fiz sempre. No início, escrevia livros e destruía-os. Não era importante que fossem publicados.

Mas anunciar isso não é uma forma de provocação?
Provocar porquê? Eu não tenho nenhuma importância colectiva. Só faço livros.

É um escritor consagrado, com muitos leitores.
A partir de certa altura… Não quero estar a dizer mal, nem nomes, mas assistir à impotência criativa de um artista é um espectáculo horrível. A pessoa está a sofrer tanto, tanto, tanto. Não é melhor parar quando se é capaz? Porque isso pode acontecer a qualquer momento, em qualquer idade.

Teme que possa vir a acontecer consigo?
Claro que tenho pavor disso. É mesmo o grande medo da minha vida: não ser capaz de escrever. Construí-me todo para isso. Não sei fazer mais nada, nem me interessa fazer mais nada.

Receia que faça um mau livro e que, até chegar às bancas, ninguém lho diga?
Se eu fizer um mau livro é terrível. Em Portugal não teria importância, mas em termos mundiais a mesa é pequena e de poucos lugares. Para uma pessoa se sentar lá tem de tirar quem lá está. Se se faz um mau livro é complicado.

A intransigência em relação aos outros é a que também tem em relação a si?
De facto, às vezes acho que sou um bocado cruel comigo mesmo. São tantos livros e tantas páginas deitadas fora. E tenho pena, porque chego a passar um dia com uma frase, com uma palavra. É preciso trabalhar com um rigor extremo. E não ter pressa.

Nestes 30 anos de vida literária, consegue identificar momentos chave?
Tenho a impressão que tudo forma uma espécie de contínuo. Mas não sei. Não estou habilitado a falar sobre isso porque não li os livros. Só os escrevi. Li o Que Cavalos…, e pensei: «Bolas, que grande livro. Tenho a vida justificada». Mas não fiquei vaidoso. Fiquei surpreendido. Porque não há motivo para a vaidade. Os livros não são nossos.

Este livro também não deixará de surpreender os leitores. Sobretudo pela multiplicidade de olhares que se advinham na leitura. A de Beatriz, que tem um filho e dois relacionamentos falhados. A de Francisco, que teve de gerir os (maus) negócios da família e que tem vontade de vingança. A de Ana, toxicodependente e frequentadora habitual do Casal Ventoso. A de João, pedófilo e cliente nocturno do Parque Eduardo VII. A de Rita, que morreu com um cancro. E a mãe, o pai, a empregada, Mercília, uma variegada galeria de personagens que se sobrepõem, dialogam, cruzam perspectivas e partilham sentimentos.

Sente que tem influenciado muito jovens escritores?
Não me cabe a mim dizer.

Não tem tido esse feedback?
As pessoas dizem-me que sim. Não só em Portugal, mas também em Espanha, França, Alemanha… É mais ou menos inevitável. Mas se são realmente escritores têm de escrever contra o autor de que gostam. Encontrar a sua voz. Só assim podem fazer o que ainda não foi feito. Eu demorei tempo a encontrar a minha voz.

Não se preocupa com isso, nem com o facto de ter perdido ou conquistado novos leitores de livro para livro?
Nesse sentido, sou um autor muito cómodo, que não discute quanto vende, nem pede nada. O importante para mim é poder escrever. Se as pessoas gostarem tanto melhor, se não, hão-de gostar mais tarde. É uma questão de tempo. E aí acho que o tempo joga a meu favor. Vamos ver daqui a 50 ou 100 anos, embora não esteja cá ninguém para ver.

A sua obra pode vir a ser entendida como paradigma de uma época ou precursora de algo?
Eu não quero ser precursor de nada. Eu quero realizar. E o que espero da vida é só isso: mais alguns livros. Nesse aspecto, não mudei. Só peço tempo para escrever e acabar o meu trabalho. Mas já que fala nisso, só posso deixar a pergunta: «Depois destes livros poder-se-á escrever da mesma maneira?»

Tem resposta para essa pergunta?
Não. Só que cheguei mais longe do que alguma vez imaginei. E que gostava de ter tempo para chegar ainda mais longe.

Entrevista publicada no JL n.º 1019, de 7 de Outubro de 2009

Banda sonora do dia: B Fachada

A época dos saldos chegou mais cedo

Na Assírio & Alvim, e em plena baixa. Eu vou passar por lá. Mais informações aqui.

O Seminarista, primeiro capítulo

Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff , D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.
O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata preta e óculos escuros. Ele me pagava bem.
«O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.»
Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, Ira furor brevis est, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.
Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel.
«Entra, entra», ele disse, «feliz Natal!»
«Faz Ô! Ô! Ô! pra mim», pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.
«Ô! Ô! Ô!», ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.
Ah, me lembrei de outro trabalho que fiz, não digo sentindo prazer, mas com uma boa disposição. No princípio senti certo escrúpulo, o sujeito era cheio de filhos, meninos e meninas.
Nesse caso vigiei o freguês antes de fazer o serviço. Ele chegava de carro e a porta automática da garagem demorava para abrir. Dentro do meu carro, do outro lado da rua, tinha oportunidade de observá-lo. Era um cara nem magro nem gordo, bem-vestido. Devia gostar dos filhos, estava sempre acompanhado de um deles. Foda-se, pensei, vou fazer o meu serviço. Mas dentro de mim sentia certo mal-estar, creio que estava começando a ficar frouxo, e para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência, não existem coisas erradas e coisas certas, é tudo a mesma merda.
Eu nunca olhava as crianças com atenção, o que era um erro, nós temos que ver tudo, o assassino profissional não olha, VÊ, essa é a sua principal virtude: ver, videre acrius, como dizia Cícero, ver bem. Eu, estupidamente, não via que as crianças, meninos e meninas que variavam entre nove e onze anos, nunca eram as mesmas. Algumas estavam malvestidas, outras eram mulatas e certa ocasião o menino era um chinesinho ou coisa parecida. O puto do freguês era um pedófilo. Nenhum era filho dele. Há quem diga que isso é normal, que cerca de dez por cento dos homens são pedófilos, e há quem diga que pedofilia é uma doença. Não me interessa, seja lá o que for não gosto de pedófilos.
Entrar na garagem do freguês não foi difícil. Embiquei o meu carro atrás do dele assim que a porta da garagem abriu e entrei grudado no seu carro. Quando paramos os carros ele disse que o que eu fizera era proibido, devia entrar um carro de cada vez. Respondi que ele tinha razão, que eu era novo no prédio. Ele estava acompanhado de um menino que não tinha mais de nove anos.
Saltei no mesmo andar que ele, o corredor estava vazio e eu enfiei com força o cano da pistola nas costelas do puto.
«Abre a porta do seu apartamento», eu disse.
Entramos.
«Você quer dinheiro, não quer?»
«Quero», respondi.
Fomos até um cofre, que ele abriu. Havia um montão de dinheiro lá.
«Põe num saco», eu disse.
Ele botou a grana dentro da saca de uma loja grã-fina. Eu disse para o garotinho, «me espera lá na sala».
Ficamos eu e o freguês em frente ao cofre aberto. Sem pressa, atarraxei o silenciador no cano da pistola.
«Eu lhe dei toda a grana que tinha», ele disse.
«Foda-se», respondi, dando um tiro na cabeça dele.
O garotinho me esperava na sala. «Vamos embora», eu disse.
Na garagem, peguei no carro do freguês o controle remoto da porta da garagem, entrei no meu carro com o menino e saímos. Perguntei ao moleque onde era a casa dele.
Era um barraco na favela.
Assim que entramos, uma mulher gorda que devia ter trinta anos, mas parecia ter cinquenta, agarrou o garoto pelas orelhas.
«Onde você se meteu, hein?»
«O moço me levou para comer doces na casa dele», o menino respondeu.
«Não posso sair que esse moleque fica vadiando», suspirou a gorda.
«Onde foi que a senhora se meteu e largou o menino sozinho?», perguntei cutucando o peito da mulher com o cano da pistola.
«Eu tenho que trabalhar para comprar comida para esse moleque e os dois irmãos pequenos dele, o meu marido se mandou», ela respondeu com os olhos arregalados, a voz trêmula.
«Então agora vai parar de trabalhar», eu disse colocando a saca cheia de dinheiro na mão dela.
«Abre uma poupança e fica em casa cuidando dos seus filhos, ouviu?»
Apertei o cano da pistola no rosto dela, para deixar uma marca. Ela gemeu.
«Vou voltar aqui. Se você não tomar conta direito dos seus filhos eu te arrebento, entendeu? E se for viver com um gigolô que vai roubar a sua grana eu mato vocês dois.»
Claro que nunca mais voltei lá. Aquela favela estava repleta de mulheres infelizes, cheias de filhos, abandonadas pelos maridos. Foda-se.

O regresso de Rubem Fonseca



O Rubem Fonseca tem novo romance, descobri agora no twitter do José Afonso Furtado. Chama-se O Seminarista, e foi publicado no Brasil pela Agir, do grupo Ediouro, para onde o escritor se mudou, após anos na Companhia das Letras. Mais informações aqui e excerto do primeiro capítulo aqui.

À conversa com Cindy Sherman...

Foto de Dora Nogueira

Esta foi a vez do Tiago Pereira, para o jornal i. Aguardo a minha...

Muro de Berlim, 20 anos depois.

«Uma viagem a Berlim – a de ontem e a de hoje. A reportagem na Alemanha em 2009, as memórias dos repórteres de 1989/90, o papel da Igreja, os movimentos culturais e toda a história do momento em que parte da história se desmoronou», num excelente trabalho da Rádio Renascença.

Cindy Sherman: Untitled Film Stills

Neta de peixe..

Inaugura-se hoje, às 18 e 30, na Assírio & Alvim, a exposição A Praia Formosa, com fotografias da ilha da Madeira tiradas pelo avô de Lourdes de Castro, Jacinto A. Moniz de Bettencourt. Na ocasião, será lançado o catálogo da mostra. A artista madeirense estará presente.

Prémio Leya

João Paulo Borges Coelho, com o romance O Olho de Hertzog, é o vencedor da 2.a edição do Prémio Leya.

20/9

Reboot...

Optimismo na imprensa?

«O futuro dos jornais impressos não é tão negro como se pinta», já que «as vendas mundiais de jornais continuam a crescer», diz o director de comunicação da Associação Mundial de Jornais. Notícia completa na edição de hoje do DN.

A Mona Lisa deles

A Mona Lisa da paleontologia acaba de ser revelada. Ver aqui.

Singularidades de um realizador português



Não se nota, mas é ele, no Indie Lisboa, a apresentar o seu último filme, Singularidades de uma rapariga loira. Plateia cheia. Palavras simples. Admiração e respeito. Começou por nos dizer que o Cinema não é novo. E que ele também não. No fundo, que seu caso também é simples. Tão só porque se chama Manoel de Oliveira.

Loucos informados

Porque andam os loucos hoje tão bem informados?

Algumas (possíveis) respostas de Paulo Moura, aqui.

Trabalhar cansa, mesmo sem relatórios




Retirado daqui.

Liberdades e manhas

«Acabar com o regime salazarista, o 25 de Abril conseguiu. Acabar com o fazer manhoso que diz que não faz, isso é que é difícil. Esse ranço é pré-salazarista, já está entranhado.»

Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN.

Matosinhos

De regresso de Matosinhos, depois de dois dias a ouvir falar de Literatura em Viagens. Para quem lá ficou, ainda há outros dois dias de conversa.

Desespero

Desespero é o sofá; é indiferença e olhos vidrados e sem curiosidade.

Paul Theroux, in O Velho Expresso da Patagónia

Pintar e filmar cidades

Ela disse-lhe: «Eu pinto cidades». E ele, que andava com uma dentro da cabeça, fez um filme. Birth of a City, de João Rosas, é uma das quatro longas-metragens da competição nacional do Indie Lisboa. Para ver dias 27 de Abril, às 21 e 45, e 1 de Maio, às 15, no Cinema Londres.

Pirataria virtual

Não há direito.

One in a million (ou menos!)

Silêncios familiares

Fotografias da exposição Verosímil, de Raquel Mendes. Fragmentos do quotidiano. Retratos mudos de ambientes familiares. Histórias que só as imagens sabem contar. De 18 de Abril a 30 de Maio, na Galeria Sopro, em Lisboa.

Leituras XI

Arte Portugal

Uma galeria portuguesa só na internet? Isso mesmo, aqui. O objectivo é «divulgar e disponibilizar, em contexto nacional e internacional, a arte contemporânea portuguesa emergente». A primeira exposição é Jogo Casual, de José Nuno Lamas e Valter Ventura. Está a um clique de distância.

O fotógrafo do Bairro Alto

Não me lembro do número de vezes que veio ter comigo, a meio do jantar, com aquela frase batida: «Vai uma fotozinha?»... Vi-o muitas vezes, ao fim de semana, aos dias úteis, ao início da noite, já de madrugada, a qualquer hora. Sempre bem disposto. E sempre no Bairro Alto. Mas nunca o tinha visto assim, como nesta reportagem da Joana Beleza e da Maria João Costa, para a Rádio Renascença.

Escritor

No amadurecimento de um escritor não há nada semelhante às cópias das pinturas da Capela Sistina dos começos de Jackson Pollock, com as suas interessantes alusões a Thomas Hart Benton. O escritor, podemos vê-lo a aprender desajeitadamente a andar, a ajeitar a gravata, a fazer amor, a usar o garfo e a faca. Dá a impressão de alguém que está muito só e determinado a dedicar-se à sua formação. Ingénuo, provinciano no meu caso, por vezes bêbado, por vezes obtuso, quase sempre desajeitado, mesmo uma selecção cuidada da sua obra inicial será a nua história da sua luta para conseguir uma formação em economia e amor.

John Cheever, no prefácio à edição do primeiro volume dos seus Contos Completos (Sextante).

Leituras X

Leituras IX

L'oiseau et l'enfant, de Marie Myriam

A arte digital de Jaime Vasconcelos

Jaime Vasconcelos fotografou umas quantas passadeiras para peões, trabalhou-as no computador e depois imprimiu-as. O resultado é um extraordinário conjunto de pinturas (ínvios são os caminhos da arte) que faz lembrar a poética de Mark Rothko. Para ver, na Galeria das Salgadeiras, até 17 de Maio.

Escrita Criativa

«Temos todos os dias a certeza de que a escrita criativa pode contribuir mais para a nossa felicidade do que um parlamento, uma multa da ASAE, um almoço grátis ou um elefante apaixonado: é a possibilidade de cada um se divertir consigo, de compreender a sua história (reconstruí-la, desconstruí-la e reinventá-la); de tornar o mundo um lugar mais habitável», diz Pedro Sena-Lino na apresentação do novo blogue da Porto Editora dedicado à Escrita Criativa (dica da revista Ler).

Romances

Às vezes, infiltram-se nos romances fragmentos de realidade que deixam manchas de humidade, como uma infiltração na parede de um quarto (Juan José Millás, O Mundo).

Leituras VIII

Quem quer ser pobre?


Sem ser inédito, é sempre surpreendente. Aravind Adiga, um jornalista e escritor indiano, nascido em Madras (actual Chennai), em 1974, ganhou o Man Booker Prize 2008, o mais importante prémio literário de língua inglesa, com o seu romance de estreia. E não é para menos. O Tigre Branco, que chega a Portugal pela mão da Presença, é uma extraordinária parábola sobre as contradições e desafios que as grandes potências do Oriente, em particular a Índia e a China, enfrentam.
Contra todas as probabilidades, Balram Halwai consegue romper com a sua condição (e casta) de pobre e chegar ao mundo empresarial de Bangalore. E quando ouve a notícia da visita oficial ao seu país do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, decide contar-lhe a sua vida. É uma conversa que se prolonga durante sete dias e na qual vamos conhecendo todas as suas peripécias, desde o quotidiano na «Escuridão» até ao golpe com que conquistoua liberdade e um lugar na «Luz».
Desta forma, Aravind Adiga, que viveu na Austrália e nos Estados Unidos da América e colaborou com a Time e o Financial Times, tentou perceber como seria a sua própria vida caso tivesse nascido pobre. E a verdade é que, como diz nesta entrevista, «não há saída para a favela». A menos que, como Balram Halwai, se opte pelo crime.

Qual foi o ponto de partida deste romance?
O Tigre Branco é uma ficção e não um trabalho de jornalismo, como muitas vezes é apresentado na Europa. Só tem intenções literárias. Claro que para uma pessoa de Portugal pode ter um sentido muito diferente e ser visto como um olhar sobre a Índia. No entanto, conta a história de um homem que tenta conquistar a sua liberdade. E essa busca é o tema central do romance. Trata-se de uma narrativa sobre alguém como eu, mas de uma classe social diferente. Alguém pobre, mas que tem as mesmas preocupações que eu. Que tenta ser livre na vida, sem a pressão da religião, da sociedade, da família ou da economia. Claro que para mim é mais fácil conseguir essa liberdade. E o desafio foi perceber o que teria acontecido caso eu tivesse nascido pobre,como a maioria de pessoas no meu país. Temos uma sociedade extremamente hierarquizada, com ricos, classe média e pobres, sem grande mobilidade social. E há tendência para se achar que os pobres são pessoas diferentes. Que têm aspirações diferentes. Que têm emoções diferentes.

Nesse sentido, a personalidade «tigre branco» é uma metáfora?
Todos estamos presos a algo. Ao mesmo tempo, qualquer pessoa é um potencial tigre branco, alguém único e diferente. Mas muitas forças sociais podem limitar a nossa individualidade. E há quem aceite isso. A sociedade dá-nos estabilidade, casamento, emprego e, para o retribuir, sacrifi camos a nossa individualidade. Provavelmente, nem todos estão preparados para esse sacrifício. O tigre branco insiste na liberdade total para a sua vida, independentemente das consequências. Mesmo se isso implicar um crime.

Para contar a sua história, o tigre branco dirige-se ao primeiro-ministro chinês. Como surgiu essa ideia?
Ele não está a escrever cartas, nem e-mails. Está em casa e começa a falar em voz alta. Ouve na rádio que o primeiro-ministro chinês vai visitar a Índia, o que na realidade foi um acontecimento histórico para dois países com relações diplomáticas muito más. Por ser megalómano, Balram Halwai – que não é o herói do romance, antes um anti-herói – está sempre a comparar-se com pessoas importantes. Como trabalha pela noite dentro, imaginou-se em grandes conversas com o primeiro-ministro da China. Ao mesmo tempo, foi uma forma de chamar atenção dos meus leitores indianos para algo que por vezes têm como garantido: que a Índia e a China vão ser grandes potências e governar o mundo. Esta opção permitiu criar vários registos na história. Mas, na verdade, ele não pode contar a sua vida a mais ninguém.

Numa sociedade de matriz cristã, como a europeia, sete dias – o tempo de duração do romance – têm uma simbologia muito forte, ligada à criação. Foi uma opção intencional?
Claro que sim. É um período de tempo importante em qualquer cultura. No fundo, ele está a contar a história de como se criou a si próprio, de como se tornou dono de si próprio. Por outro lado, é uma paródia, porque ele não conquistou essa independência da forma mais correcta. Criou-se a si mesmo através do crime.

A ironia e a estrutura quase detectivesta do livro contribuem para essa paródia?
Exactamente. Não há nada no meu livro que não seja conhecido dos leitores indianos. Tivemos um boom económico, entre 1995 e 2005, mas só beneficiou a classe média, não fez nada pelos pobres. Ao usar a ironia e o suspense é possível falar sobre algo extremamente desagradável para os leitores, sobretudo para os indianos da classe média. Outro aspecto que me interessou foi o facto de, na Índia, haver uma divisão muito rígida entre literatura erudita e popular. E isso condiciona o estilo. Na erudita, feita pelos escritores mais famosos, a acção tende a ser lenta, cuidadosamente escrita e estruturada, com temas e protagonistas das classes médias e altas, politicamente de esquerda ou liberais. Na popular, às vezes escrita nos dialectos indianos, são mais frequentes as ficções científicas, os policiais, as obras pornográficas, tudo muito rápido, com protagonistas das classes baixas. O meu objectivo foi fundir as duas literaturas. Segundo essa divisão, esta história é perturbante não só pelo tema, mas pela forma como é contada.

O Tigre Branco aborda as profundas contradições da sociedade indiana. Não teme que, embora ficção, seja visto como um livro político, portador de uma mensagem forte?
Nunca o vi nessa perspectiva. E também não saberia dizer que mensagem poderia ser extraída do livro, porque o herói é um criminoso.

Nem na descrição dos políticos e da corrupção que usam para chegar ao poder?
Isso é algo que acontece sobretudo no Norte da Índia. Muitos políticos são controlados por criminosos. Essa é a ironia. Para um pobre conseguir chegar a rico só tem dois caminhos: o crime ou a política. A minha personagem questiona a legitimidade do sistema, que permite a ascensão de criminosos a altos cargos.

O Tigre Branco é lançado em Portugal depois de Quem Quer Ser Bilionário? ter sido distinguido com oito Óscares. Estamos a descobrir uma nova Índia?
Não sei que imagem se tem da Índia. Para mim são dois romances e duas histórias muito diferentes. Baseiam-se no facto da maioria da população indiana ser pobre, o que é verdade. Não ter isso presente é estar desfasado da realidade. Por vezes, os nossos escritores, realizadores e artistas têm vergonha desse facto, o que faz com que os pobres não apareçam muito. Mas não devemos fi car envergonhados. É a nossa realidade. O que eu não gosto no filme Quem Quer Ser Bilionário? é que banaliza o carácter esmagador da pobreza. Sente-se logo que é uma fantasia. É impossível um rapaz da favela chegar a um concurso como aquele. O problema é que não há saída para a favela. Ou se aceita, ou se tenta contorná-la pelo crime e pela política. Não há fantasia.

Como vê o futuro da Índia e da China enquanto potências emergentes? Podem ter um papel decisivo na actual crise?
É inevitável. Um dos resultados práticos desta crise parece ser que a Índia e a China vão ser ainda mais importantes daqui a cinco anos. A crise acelerou esse processo. Mas têm de ser países mais maduros. O primeiro passo é resolver os problemas internos. No caso da Índia o maior é, sem dúvida, o fosso entre ricos e pobres.

Entrevista publicada no JL n.º 1003 (foto de Mark Pringle)

Slumdog Millionaire, por Arundhati Roy

«The pundits say that the appeal of the film lies in the fact that while in the West for many people riches are turning to rags, the rags to riches story is giving people something to hold on to. Scary thought. Hope, surely, should be made of tougher stuff. Poor Oscars. Still, I guess it could have been worse. What if the film that won had been like Guru – that chilling film celebrating the rise of the Ambanis. That would have taught us whiners and complainers a lesson or two. No?», diz a activista e escritora Arundhati Roy, autora do romance O Deus das Pequenas Coisas, sobre o filme Quem Quer ser Bilionário?. Para ler aqui ou na edição de Abril do Courrier internacional.

Leituras VII

Victor Brauner

Mais dois quadros de Victor Brauner, Prelude to a Civilization e Boxeurs. Ando grudado neste artista.

SobrEscritas em Torres Vedras

Amanhã não vou poder ir ao arranque da 3.ª edição do SobrEscritas, o encontro de escritores de Torres Vedras, organizado pela associação Académico de Torres Vedras e pela livraria Livrododia. Tenho pena. Muita pena. Mas depois vou perguntar o que por lá se passou ao homem que queria ser Luís Filipe Cristóvão.

DN virtual com novo visual

O Diário de Notícias tem um novo site na internet. Para conhecer aqui.

A Guerra Colonial vista por Manuel Botelho



Se estivesse no Porto, ia ver esta exposição do Manuel Botelho, na Galeria Fernando Santos. Chama-se Aerogramas e evoca a experiência da Guerra Colonial por quem a viveu. O ponto de partida são as cartas que os militares trocaram com as suas famílias, os tais aerogramas. São memórias fragmentadas aqui reescritas pelo desenho e pelos contrastes entre a cor e o carvão.

Um detective melancólico

Solitário, existencialista, melómano, apreciador de comida italiana, de um bom chope e de um charuto de vez em quando. Remo Bellini, o detective criado pelo brasileiro Tony Bellotto, 48 anos, guitarrista da banda Titãs, está de regresso a Portugal com mais uma investigação. Desta vez, trata-se de Um caso com o demónio, que a Quetzal acaba de lançar e cuja adaptação ao cinema, por Marcelo Galvão, se estreou na última edição do Fantasporto. Um manuscrito inédito de Dashiell Hammett levará Bellini, um paulista de alma e coração, às paisagens turísticas do Rio de Janeiro, no rasto de um playboy que poderá ter a chave deste mistério que exalta editores norte-americanos. Pelo meio, há uma adolescente assassinada na casa de banho de uma escola, com um tiro na testa. Como as personagens Hammett, Bellini dá o corpo ao manifesto e aventura-se por conta e risco em busca do assassino. É isso, aliás, que mais entusiasma Tony Bellotto, uma acção veloz, subjacente à ideia de um enigma a ser desvendado, conjugada com o retrato psicológico das personagens. «Os meus romances policiais seguem uma fórmula bastante tradicional, que se pode reduzir à máxima cadáver na primeira página, culpado na última», descreve. «O que os torna interessantes é a personalidade do Bellini, que é um detective bastante atípico».
O guitarrista dos Titãs, casado com a actriz Malu Mader, chega até a vê-lo como um duplo de si próprio. «Pelas reflexões que faz e pela forma como encara a vida é extremamente parecido comigo», afirma. A única diferença é que são lados opostos da mesma moeda. Um é solteiro, dado a infelicidades e a insucessos profissionais. De Tony Bellotto não se pode dizer o mesmo. «Todos sentimos que a vida também é feita de pontos obscuros, incertezas e inseguranças. Se eu consigo escapar a algumas, na escrita deixo que o fracasso e a desilusão se apoderem do Bellini». Não admira que o detective se entregue aos melancólicos ritmos do blues, que ouve no walkman, seguindo os gostos musicais do seu criador.
A música, de resto, sempre esteve presente na vida de Tony Bellotto – e comanda muitas vezes o ritmo da narrativa. Até porque o gosto pela escrita e pela música surgiu ao mesmo tempo, na adolescência. O fascínio por Jimi Hendrix e pelos Rolling Stones, entre outros, ditaram a primazia da guitarra eléctrica. No Colégio Equipe, conheceu alguns dos futuros membros dos Titãs, que na formação inicial contava com André Jung, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto. O primeiro disco da banda, ainda activa, saiu em 1984.
Foi lá pelos 30 anos que passou a encarar a escrita mais seriamente. «Se ainda tenho esse desejo preciso tentar cumpri-lo», pensou na altura. E pôs mão à obra, aproveitando os períodos entre as gravações dos discos. O primeiro policial, Bellini e a esfinge, surgiria em 1995, seguido de Bellini e o demónio (Um caso com o demónio em Portugal) e Bellini e os espíritos (publicado pela Bertand com o título Um caso de espíritos). Fora do género, publicou os romances BR163: duas histórias na estrada e Os insones. Em projecto, está um livro, com a primeira versão já concluída, que aborda a temática da música. E uma tournée dos Titãs por Portugal, algo que nunca foi possível. Agora, talvez o Bellini ajude.

Texto publicado no JL n.º 1003 (foto de Bel Pedrosa)

Regresso ao passado

Numa RGA, na FLUL, sobre Os Fazedores de Letras.

Vem aí a vanguarda romena

No Museu do Chiado, em Lisboa, a partir de dia 26, na exposição Cores da Vanguarda - Arte na Roménia, de 1910 a 1950 (Adão e Eva, pintura de Victor Brauner)

A Capela Sistina do Egipto

«Chamam-lhe já a 'Capela Sistina do Antigo Egipto'. Uma equipa hispano-egípcia, liderada por José Manuel Galán, encontrou em Luxor, na margem do Nilo, uma câmara funerária pintada há 3500 anos, anunciou o Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha». Ler notícia completa no DN.

Façam como ele

«O Vaticano recomenda a abstinência sexual para se combater a propagação das infecções com HIV e foi essa mesma linha que Bento XVI agora reafirmou no início de uma viagem de uma semana aos Camarões e a Angola», lê-se no Público. Só lhe faltou dizer: «Façam como eu...»

A física da solidão

É uma metáfora simples, mas funciona. Os números primos são únicos e misteriosos. Não se percebe muito bem o seu padrão e a razão da sua indivisibilidade. Além disso, espaçadamente, surgem em pares, apenas separados por um número, como o 19 e o 21 ou o 27 e o 29. O mesmo acontece com os protagonistas do romance de estreia de Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, um autêntico fenómeno de vendas, sobretudo depois da atribuição do Prémio Strega, o principal galardão literário de Itália.
Para Alice e Mattia nada é fácil. A aprendizagem da vida faz-se de muita incompreensão e dor. A solidão marca-lhes a alma, tal como as marcas do corpo espelham o seu isolamento da sociedade. Uma «história emocional», como descreve Paolo Giordano, um estudante de Física, nascido em Turim, em 1982, que está a preparar uma tese de doutoramento em torno das questões inerentes ao acelerador de partículas. Embora sonho antigo, a escrita só surgiu há três anos e meio, mais por aborrecimento do que por decisão consciente. Primeiro chegou a música. Em criança, ambicionava ser uma «estrela de rock». Ficou preso aos acordes durante década e meia, influenciado pelas sonoridades do pop e da electrónica. Agora, trocou o palco pela escrita. E, enquanto digere este sucesso (só em Itália vendeu um milhão de exemplares), com direitos vendidos para muitos países, já começou a pensar no próximo romance. É que entre a Física e a Literatura, os números batem sempre certo.

Como é que um físico, a preparar uma tese de doutoramento, acaba a lançar um romance?

Estava um bocado aborrecido com o meu trabalho. Quando se está a estudar Física, na faculdade, aprende-se muito rapidamente e é tudo fascinante. Porém, quando se começa a investigar a sério um determinado aspecto cada avanço leva meses. Por isso, senti que precisava de algo mais livre, sem as apertadas regras da Física. Além disso, a ideia de escrever um romance era antiga. Levou tempo porque provavelmente não fui suficientemente corajoso e pensava que talvez não fosse bom o sufi ciente. Até que, aos poucos, há três anos e meio, comecei a escrever contos e, passado algum tempo, arrisquei algo maior.

O que o atraiu inicialmente na Física?
Foi uma espécie de desafio. Era a disciplina em que tinha mais difi culdade na escola. Mas também aquela que sempre pensei que me podia levar mais longe ao nível do conhecimento. Na Física vamos até ao detalhe. Em A Solidão dos Números Primos sente-se uma grande precisão na linguagem.

A Física influenciou a sua escrita?
Acho que sim. No campo da Física Precisa temos de nos preocupar com números, com a exactidão dos números. Temos de saber tudo ao detalhe. Provavelmente, isso moldou a minha cabeça. E, de facto, tentei ser o mais preciso possível na linguagem. Usar nada mais do que o necessário.

Encontrar as palavras exactas?
Exactamente. Se sinto que uma frase pode ser dita de uma forma mais precisa volto a escrevê-la, uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Mas a par dessa precisão cerebral, sinto a presença da música, o trabalho com o ouvido na construção da sonoridade das frases.


Através da Física poderíamos dizer que A Solidão dos Números Primos é um livro sobre a atracção dos corpos. Qual foi o seu ponto de partida?
Nas leis da gravidade, quando temos dois corpos eles atraem-se, mas a partir de certa altura não conseguem aproximar-se muito, passando a girar em torno de um centro. O mesmo acontece com estas personagens. Elas sentem-se atraídas, mas como são muito parecidas quase que se repelem. Sempre me intrigou por que motivo não conseguimos chegar demasiado perto de algumas pessoas que nos são muito próximas e pelas quais sentimos uma grande atracção, até ao nível sexual. É uma espécie de história de amor imperfeita.

Mas o que lhe interessou nos protagonistas deste romance, bem longe da normalidade?
Não foram planeados. Quando introduzia uma nova personagem, ela acabava dominada pela solidão ou pelas suas idiossincrasias. Só depois percebi que era sobre isso que eu queria escrever: a escuridão que todos sentimos dentro de nós, enterrada por baixo de muitas coisas e que se expressa de muitas maneiras. As atitudes dos protagonistas, às vezes extremas, sãouma forma de mostrar essa escuridão.

É essa a ideia do título do romance?
É o fascínio de todo o estudioso da Matemática e da física. São tão simples de definir que até um criança que saiba contar até 10 consegue explicá-los. Contudo, mesmo com essa simplicidade há um mistério, ainda por resolver, sobre o padrão que seguem. Daí serem tão especiais e peculiares, como estas personagens.

No entanto, tanto Alice, quanto Mattia têm um enorme instinto de sobrevivência.
Nunca pensei muito sobre isso… Talvez. São vitais, num certo sentido. Provavelmente, grande parte dessa vitalidade vem da tensão que existe entre ambos, porque ao longo de toda a história eles partilham a dor um com o outro.

Este é um livro que fala sobre a actualidade? Estamos a viver tempos de solidão?
Não sei se hoje em dia a solidão é maior do que em outras épocas. Numa resposta rápida, diria que não, na medida em que temos tantos meios para nos comunicarmos, como os telemóveis e a internet. Costumo trabalhar muito com estudantes, e eles parecem-me já tão diferentes do que eu era com a mesma idade. Estão sempre a comunicar. No entanto, há uma grande sensação de precariedade, sobretudo nos últimos meses, como se as coisas estivessem movediças. É algo que se entranha na pele.

Este seu romance de estreia foi um enorme sucesso. Consegue explicá-lo?
Nunca é fácil explicar, sobretudo quando se trata de livros, que são um mistura de muitas coisas, incluindo coincidências. Talvez porque seja uma história muito emocional. O único objectivo que eu tinha em mente era fazer um livro acessível, sem ser simples, nem banal.

Versão ampliada da entrevista publicada no JL n.º 1003

Leituras VI